Marcos Siscar

Outubro 12, 2011 § Deixe um comentário

eu estou lendo marcos siscar (n. 1964, poeta, tradutor, professor de literatura na unicamp), ou melhor – eu tenho lido marcos siscar. explico-me: embora eu não seja do perfil “leitores de livro de cabeceira” que elegem alguns livros para a perpétua releitura (e por isso mesmo esta viagem de cabeceira, porque tudo passa – até a memória), seu livro metade da arte (2003, que compreende os livros anteriores, terra incultanão se diz e tome seu café e saia, além do próprio metade da arte) tem sido uma espécie de leitura reiterada e reiterante nos últimos tempos (e creio que isso seja bom, já que não se retorna (ou não se deveria retornar) àquilo que se detesta): lia eu por conta própria; li e debati num grupo de leituras de poesia contemporânea, voltei a ler por conta própria, e o processo de digestão ainda não parece ter chegado ao fim. talvez por isso este post. pra ver se acontece a digestão forçada, mesmo que não se trate exatamente de uma crítica.

vou tentar resumir como tenho convivido com a poesia de marcos siscar: é uma grande névoa, mas, como costumo gostar de névoas – curitiba é um paraíso das névoas, sobretudo matinais – sua poesia é uma grande névoa onde tenho me perdido nos últimos tempos.

a primeira questão está na forma: é a sistematização do desencontro entre verso e respiração (se lermos, um poema pausando ao fim de cada verso, acontece uma espécie de catástrofe da semântica gerada pelas pausas fora do lugar, o texto parece entrar numa fragmentação profunda, que uma segunda leitura revela ser mais sutil); a outra é a ausência total, ou quase, de pontuação,
que leva o leitor a preencher o poema com sua prosódia e leitura pessoais; somente o leitor pode dar-lhe tom, pausas – eu diria mesmo que aqui é o leitor quem inventa o verso em estado bruto apresentado por siscar. essa construção aparentemente frouxa chama o leitor, dá a ele sua parcela de coautoria no poema: para além de sua interpretação, o leitor é convidado a dar forma ao poema.

mas paradoxalmente a poesia de siscar é capaz de passar uma imensa paz/harmonia visual. quando olhamos para o(s) verso(s), com seu tamanho tão similar, temos quase a sensação, equivocada, de que o poema estaria de fato metrificado. no entanto, uma leitura mais atenta gera uma segunda sensação: a quebra dos versos parece ser praticamente aleatória, como que uma resposta automática ao tamanho da linha (mas eu arriscaria dizer que, por trás da aparente confusão entre imagem e ritmo, há um verso muito bem medido em sua poesia – tão recorrente nas referências cabralinas). um exemplo (um ótimo exemplo):

MAU INFINITO

persiste a dor a dor não é
somente a erosão artista
não se diz dor da dor despida
incapaz do hábito e da fratura
da dor a dor não se diz não
se diz seu não-dito não é mais
nem infinito não se diz dor
sem trair o que da dor se escorre
(sua voz frágil me comovia
meu deleite lhe era insulto)

(de não se diz)

embora esse não seja dos poemas mais radicais no processo de criação de siscar, podemos pensar que o poeta funciona como o criador da pedra-bruta-poema, que entrega essa pedra ao leitor e pede que ele seja capaz de esculpir a partir dos veios na rocha previamente deixados/incrustados pelo poeta. essa forma “bruta” do poema concide perfeitamente com sua metalinguagem, sua desconfiança no poder nomeador ou descritivo da linguagem. mas onde fracassa a linguagem entra a interpretação, que a renova por meio da subjetividade em movimento do leitor e dos caminhos traçados pelo autor – não se trata, obviamente, de uma subjetividade unívoca, mas do processo de subjetivação que liga leitor e poeta (“tudo é comum” é título e verso de outro poema, que não comento aqui).

por fim, o que mais pode enevoar é a presença de carrapichos (termo e conceito que interessa ao poeta em outros textos e livros) poéticos, trechos aparentemente desconexos, inserções das mais inusitadas, digressões alongadas, etc. que desnorteiam o texto e quebram a função comunicativa do poema. tudo isso produz a poesia-de-névoa de marcos siscar.

e, como já disse, eu tenho estado ali perdido; mas, se vez por outra me frustro (abandono e depois retorno), noutras vezes, e cada vez mais, aproveito a matéria de névoa – num email, ele me falou de “névoa boa” – e aqui eu deixo algumas boas névoas que fazem o volume sempre voltar às minhas mãos. dá pra ter uma mostra melhor na, revista agulha.

mais três poemas, então: estão aqui escolhidos pra marcar mais um ponto que me chamou para a releitura do livro. marcos siscar é capaz de escrever de modo muito (aqui escolho a palavra, mas ela parece falhar) “indiferente”. sua poesia, de certo modo inserida na tradição cabralina (ainda que fugindo à sua discursividade mais tradicional) e num certo tom francês, demonstra uma frieza que paira sobre o sentido. melhor que indiferença, seria falar de um certo “afastamento” do poeta. mas isso não implica, de modo algum, a fuga de temas que não permitem qualquer tipo de indiferença, tais como a morte, a perda e a paternidade (que aparecem nos três poemas abaixo); não se trata também de uma objetividade do tratamento (e creio que as névoas aqui apresentadas deixem claro como siscar está ciente da artificialidade e subjetividade envolvida no enquadramento da escrita). ao contrário, esse contraste entre tema e tom convida o leitor, pelo seu estranhamento, ainda mais à releitura atenta e de intervenção sobre as possibilidades do texto – existe um incômodo, é claro, existe também o risco da desistência do leitor; mas se o carrapicho pegar, se coçar, é provável que fertilize.

A MORTE TERÁ MEUS OLHOS

o pálido sentido da palavra morte
batido sem trégua num espelho de dias
mas como habituar-se com essa literatura
que preenche a vida de corpos e afasia
terrificante ainda a credulidade
por exemplo a dos olhos duplicados
na superfície inquiridora deste vidro
me interpela um anjo não nascido
(os olhos são bem mais velhos que o olhar)
um anjo que brinca e depois anuncia
que os olhos são velhos e lhe pertenciam
que um eu ali se consumia

(de não se diz)

Sobre uma taça de cristal

não acreditar em nada em nada
que reluz em nada que persiste
não nada é só belo e de nada
garante acreditar não persiste
o lugar em que a mão pousou
com carinho fere agora a mão
que toca
esta cinza de cacos
vinda do fundo de um armário
como uma fênix disforme sem
nem mesmo cacos acreditar em quê
em nada ora acreditar por quê

(de metade da arte)

Ao filho

o acontecimento não é o que acontece
mas o que vem acontecendo e talvez
um dia se possa dizer que terá acontecido
pedra que este nome lhe seja leve
entrar e sair desta vida é tarefa difícil
as respirações se aceleram com ruídos
travam combate com o vácuo da ausência
e desse encontro de águas me resta (a sua
boca uma harpa onde a vida entra em transe
seu nariz um inferno muito raso
sua orelha morde esse legado insaturável)
você é meu espelho não o que reflete
mas um avesso claro aquilo em que me falto
talvez você nasça você vem nascendo
você é meu pai meu filho não há
dia em que não se morra e ou não se nasça

(de metade da arte)

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