wislawa szymborska

Novembro 2, 2011 § Deixe um comentário

não costumo dar lá grandes bolas pra prêmios e premiados literários – não que tenha por princípio não lê-los,mas poucos realmente me agradam, então sempre estou desligado dos resultados gerais.

foi esse o caso com wislawa szymborska (n. 1923), que ganhou o nobel de literatura em 1996 e me era uma ilustre desconhecida (fora um ou outro poema, que já tinha me passado uma boa impressão) até semana passada… assim digo: pegar um fim de domingo pra descobrir boa literatura que a nossa própria ignorância vinha nos roubando, taí uma coisa que alegra o dia, a semana, o mês!

fiquei abismado – e deslumbrado – com a lucidez da poesia se szymborska (“sou lúcido: nada de estéticas com coração / merda! sou lúcido.” diria álvaro de campos; mas sua lucidez não tem nada a ver com a histeria de álvaro de campos), e mais ainda porque nada naquela lucidez a desumanizava – um risco tão grande dos lúcidos -; ao contrário, só aumentava sua humanidade, mas sem cair no demasiado humano, que já pouco interessa…

assim pensei em postar dois poemas em duas ou mais traduções, já que não sei patavinas de polonês.

uma coisa é certa: a julgar pelas diferenças entre as traduções a suposta singeleza do texto de szymborska não passa de ilusão de ótica.

Tortura

Nada mudou.
O corpo sente dor,
tem que comer, respirar, dormir,
a pele fina, o sangue sob a pele,
um bom estoque de dentes e unhas,
os ossos frágeis,
as juntas que se distendem.
Na tortura tudo isto conta.

Nada mudou.
O corpo treme como tremia
antes da fundação de Roma e depois,
no século vinte antes e depois de Cristo.
A tortura existe como existia, apenas o mundo ficou menor
e tudo que acontece, acontece como ali ao lado.

Nada mudou.
Apenas há mais gente.
Além das velhas acusações, surgem outras,
verdadeiras, imaginárias, efêmeras, ou nenhuma,
mas o grito com que o corpo responde
foi, é e será o grito da inocência
na mesmas escala imemorial e no mesmo tom.

Nada mudou.
Talvez os costumes, as cerimônias, talvez as danças.
O gesto das mãos protegendo a cabeça ainda é o mesmo.
O corpo se contorce, estica, luta,
derrubado cai, se dobra, roxo,
incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Apenas a linha de fronteiras
de florestas, costas, desertos e icebergues.
Nestas paisagens a alma perambula,
desaparece, volta, se aproxima e se distancia,
desconhecida de si mesma, esquiva,
às vezes certa, às vezes incerta da sua própria existência,
enquanto o corpo é e é e é,
e não tem para onde ir.

(trad. Ana Cristina Cesar e Grazyna Drabik)

Torturas

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo o sangue,
uma boa reserva de de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar e Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo.
A tortura são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parece ser na porta ao lado.

Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo escala e registro sempiternos.

Nada mudou.
Talvez os modos, as cerimônias, as danças.
O gesto das mão protegendo o rosto,
esse permanece o mesmo.
O corpo se enrosca, se debate, se contorce
cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas,
fica roxo, incha, baba e sangra.
Nada mudou.
Apenas o curso dos rios,
do contorno das costas, matas, desertos e geleiras.
Entre essas paisagens a pequena alma passeia,
some, volta, chega perto, voa longe,
estranha a si própria, inatingível,
ora certa, ora incerta da sua existência,
enquanto o corpo é, é, é
e não tem para onde ir.

(trad. Regina Przybycien)

Tortures

Nothing has changed.
The body is a reservoir of pain;
it has to eat and breathe the air, and sleep;
it has thin skin and the blood is just beneath it;
it has a good supply of teeth and fingernails;
its bones can be broken; its joints can be stretched.
In tortures, all of this is considered.

Nothing has changed.
The body still trembles as it trembled
before Rome was founded and after,
in the twentieth century before and after Christ.
Tortures are just what they were, only the earth has shrunk
and whatever goes on sounds as if it’s just a room away.

Nothing has changed.
Except there are more people,
and new offenses have sprung up beside the old ones–
real, make-believe, short-lived, and nonexistent.
But the cry with which the body answers for them
was, is, and will be a cry of innocence
in keeping with the age-old scale and pitch.

Nothing has changed.
Except perhaps the manners, ceremonies, dances.
The gesture of the hands shielding the head
has nonetheless remained the same.
The body writhes, jerks, and tugs,
falls to the ground when shoved, pulls up its knees,
bruises, swells, drools, and bleeds.

Nothing has changed.
Except the run of rivers,
the shapes of forests, shores, deserts, and glaciers.
The little soul roams among these landscapes,
disappears, returns, draws near, moves away,
evasive and a stranger to itself,
now sure, now uncertain of its own existence,
whereas the body is and is and is
and has nowhere to go.

(trad. Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh)

achei ainda uma versão num blogue, sem nome de tradutor (floribundo), e outra em espanhol, também sem nome de tradutor (boletin tokata) – o que me faz pensar em como esse trabalho ainda é desvalorizado, mesmo no caso da poesia…


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