wislawa szymborska

Novembro 2, 2011 § Deixe o seu comentário

não costumo dar lá grandes bolas pra prêmios e premiados literários – não que tenha por princípio não lê-los,mas poucos realmente me agradam, então sempre estou desligado dos resultados gerais.

foi esse o caso com wislawa szymborska (n. 1923), que ganhou o nobel de literatura em 1996 e me era uma ilustre desconhecida (fora um ou outro poema, que já tinha me passado uma boa impressão) até semana passada… assim digo: pegar um fim de domingo pra descobrir boa literatura que a nossa própria ignorância vinha nos roubando, taí uma coisa que alegra o dia, a semana, o mês!

fiquei abismado – e deslumbrado – com a lucidez da poesia se szymborska (“sou lúcido: nada de estéticas com coração / merda! sou lúcido.” diria álvaro de campos; mas sua lucidez não tem nada a ver com a histeria de álvaro de campos), e mais ainda porque nada naquela lucidez a desumanizava – um risco tão grande dos lúcidos -; ao contrário, só aumentava sua humanidade, mas sem cair no demasiado humano, que já pouco interessa…

assim pensei em postar dois poemas em duas ou mais traduções, já que não sei patavinas de polonês.

uma coisa é certa: a julgar pelas diferenças entre as traduções a suposta singeleza do texto de szymborska não passa de ilusão de ótica.

Tortura

Nada mudou.
O corpo sente dor,
tem que comer, respirar, dormir,
a pele fina, o sangue sob a pele,
um bom estoque de dentes e unhas,
os ossos frágeis,
as juntas que se distendem.
Na tortura tudo isto conta.

Nada mudou.
O corpo treme como tremia
antes da fundação de Roma e depois,
no século vinte antes e depois de Cristo.
A tortura existe como existia, apenas o mundo ficou menor
e tudo que acontece, acontece como ali ao lado.

Nada mudou.
Apenas há mais gente.
Além das velhas acusações, surgem outras,
verdadeiras, imaginárias, efêmeras, ou nenhuma,
mas o grito com que o corpo responde
foi, é e será o grito da inocência
na mesmas escala imemorial e no mesmo tom.

Nada mudou.
Talvez os costumes, as cerimônias, talvez as danças.
O gesto das mãos protegendo a cabeça ainda é o mesmo.
O corpo se contorce, estica, luta,
derrubado cai, se dobra, roxo,
incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Apenas a linha de fronteiras
de florestas, costas, desertos e icebergues.
Nestas paisagens a alma perambula,
desaparece, volta, se aproxima e se distancia,
desconhecida de si mesma, esquiva,
às vezes certa, às vezes incerta da sua própria existência,
enquanto o corpo é e é e é,
e não tem para onde ir.

(trad. Ana Cristina Cesar e Grazyna Drabik)

Torturas

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo o sangue,
uma boa reserva de de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar e Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo.
A tortura são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parece ser na porta ao lado.

Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo escala e registro sempiternos.

Nada mudou.
Talvez os modos, as cerimônias, as danças.
O gesto das mão protegendo o rosto,
esse permanece o mesmo.
O corpo se enrosca, se debate, se contorce
cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas,
fica roxo, incha, baba e sangra.
Nada mudou.
Apenas o curso dos rios,
do contorno das costas, matas, desertos e geleiras.
Entre essas paisagens a pequena alma passeia,
some, volta, chega perto, voa longe,
estranha a si própria, inatingível,
ora certa, ora incerta da sua existência,
enquanto o corpo é, é, é
e não tem para onde ir.

(trad. Regina Przybycien)

Tortures

Nothing has changed.
The body is a reservoir of pain;
it has to eat and breathe the air, and sleep;
it has thin skin and the blood is just beneath it;
it has a good supply of teeth and fingernails;
its bones can be broken; its joints can be stretched.
In tortures, all of this is considered.

Nothing has changed.
The body still trembles as it trembled
before Rome was founded and after,
in the twentieth century before and after Christ.
Tortures are just what they were, only the earth has shrunk
and whatever goes on sounds as if it’s just a room away.

Nothing has changed.
Except there are more people,
and new offenses have sprung up beside the old ones–
real, make-believe, short-lived, and nonexistent.
But the cry with which the body answers for them
was, is, and will be a cry of innocence
in keeping with the age-old scale and pitch.

Nothing has changed.
Except perhaps the manners, ceremonies, dances.
The gesture of the hands shielding the head
has nonetheless remained the same.
The body writhes, jerks, and tugs,
falls to the ground when shoved, pulls up its knees,
bruises, swells, drools, and bleeds.

Nothing has changed.
Except the run of rivers,
the shapes of forests, shores, deserts, and glaciers.
The little soul roams among these landscapes,
disappears, returns, draws near, moves away,
evasive and a stranger to itself,
now sure, now uncertain of its own existence,
whereas the body is and is and is
and has nowhere to go.

(trad. Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh)

achei ainda uma versão num blogue, sem nome de tradutor (floribundo), e outra em espanhol, também sem nome de tradutor (boletin tokata) – o que me faz pensar em como esse trabalho ainda é desvalorizado, mesmo no caso da poesia…


william carlos williams

Outubro 20, 2011 § Deixe o seu comentário

um viva à deriva!

lendo os poemas completos de robert creeley passei por um poema que citava uma linha do wcw que me levou ao dito poema citado que me levou ao impulso gratuito de traduzi-lo que me traz ao blogue antes de qualquer estimativa.

com o poema, é claro.

Uma Canção de Amor
(william carlos williams)

 O que é que tenho pra dizer
quando nos encontrarmos?
Mas –
Aqui estou eu pensando em você.

A mancha do amor
Recobre o mundo.
Amarela amarela,
Ela carcome as folhas,
Lambuza de açafrão
Os córneos galhos que pendem
Pesados
Contra um suave céu de púrpura.

Não há luz –
Só uma mancha melada
Que pinga de folha em folha
De membro em membro
E estraga as cores
Do mundo inteiro.

Estou sozinho.
O peso do amor
Me fez boiar
Até a cabeça
Bater contra o céu.

Veja!
Meu cabelo pinga de néctar –
Passarinhos o levam
Em suas asas negras.
Veja enfim
Meus braços minhas mãos
Aqui ociosos.

Como posso dizer
Se ainda vou te amar
Como amo agora?

(trad. Guilherme Gontijo Flores)

A Love Song

What have I to say to you
When we shall meet?
Yet—
I lie here thinking of you.

The stain of love
Is upon the world.
Yellow, yellow, yellow,
It eats into the leaves,
Smears with saffron
The horned branches that lean
Heavily
Against a smooth purple sky.

There is no light—
Only a honey-thick stain
That drips from leaf to leaf
And limb to limb
Spoiling the colours
Of the whole world.

I am alone.
The weight of love
Has buoyed me up
Till my head
Knocks against the sky.

See me!
My hair is dripping with nectar—
Starlings carry it
On their black wings.
See, at last
My arms and my hands
Are lying idle.

How can I tell
If I shall ever love you again
As I do now?

roberto piva em cinco poemas

Outubro 19, 2011 § Deixe o seu comentário

paranoia (1963) foi um meteoro na poesia brasileira. eu só posso imaginar a cara dos leitores (enquanto concretos paulistas e cariocas digladiavam pela ponta da vanguarda, a geração de 45 rimava, cabral concentrava e drummond não dava a mínima, ou até dava, mas do seu jeito reservado) diante da poesia de roberto piva (1937-2010). aquilo só podia vir do céu – do céu material, é claro, que pro piva deus (o deus dos cristãos, ao menos), tava fora da parada.
era uma mistura de lautréamont com ácido lisérgico, numa levada ginsberg, pelo submundo noturno de são paulo. perto do piva, os experimentos surrealistas de murilo mendes e jorge de lima pareciam bossa nova encarando ornette coleman. talvez por isso se leia quase que só o paranoia, pela sua radicalidade e singulraidade na poesia brasileira. pra aumentar um pouco o repertório da sua poesia é que (munido dos 3 volumes da sua poesia publicados pela editora globo, organizados por alcir pécora, que teve a indecência de nos conceder essa alegria) decidi mostra o rabo – louco – do meteoro. 5 poemas, não necessariamente os melhores, os mais importantes – 5 poemas da minha arbitrariedade (movido pelo fato de ficarem na minha memória), mas que podem, de algum modo fazer o seguinte desenho:
partir do delírio imagético do paranoia (com sua verve demolidora, cf. o caráter destrutivo, de walter benjamin), passar pelas alucinações sintáticas de piazzas (1964) e depois desaguar nos poemas que apresentam uma maior discursividade e positividade: ou seja, uma ética apresentada para além do caráter destrutivo, que estará ligada a um esoterismo sui generis, a imagéticas do xamanismo e de uma ecologia que em grande parte antecipa as discussões contemporâneas. assim, pois, o 5, em ordem cronológica.
Visão 1961

as mentes ficaram sonhando penduradas nos esqueletos de fósforo
 invocando as coxas do primeiro amor brilhando como uma
 flor de saliva
o frio dos lábios verdes deixou uma marca azul-clara debaixo do pálido
 maxilar ainda desesperadamente fechado sobre o seu mágico vazio
marchas nômades através da vida noturna fazendo desaparecer o perfume
 das velas e dos violinos que brota dos túmulos sob as nuvens de 
 chuva
fagulha de lua partida precipitava nos becos frenéticos onde
 cafetinas magras ajoelhadas no tapete tocando o trombone de vidro
 da Loucura repartiam lascas de hóstias invisíveis
a náusea circulava nas galerias entre borboletas adiposas e
 lábios de menina febril colados na vitrina onde almas coloridas
 tinham 10% de desconto enquanto costureiros arrancavam os ovários
 dos manequins
minhas alucinações pendiam fora da alma protegidas por caixas de matéria
 plástica eriçando o pelo através das ruas iluminadas e nos arrabaldes
 de lábios apodrecidos
na solidão de um comboio de maconha Mário de Andrade surge como um
 Lótus colando sua boca no meu ouvido fitando as estrelas e o céu
 que renascem nas caminhadas
noite profunda de cinemas iluminados e lâmpada azul da alma desarticulando
 aos trambolhões pelas esquinas onde conheci os estranhos
 visionários da Beleza
já é quinta-feira na avenida Rio Branco onde um enxame de Harpias
 vacilava com cabelos presos nos luminosos e minha imaginação
 gritava no perpétuo impulso dos corpos encerrados pela
 Noite
os banqueiros mandam aos comissários lindas caixas azuis de excrementos
 secos enquanto um milhão de anjos em cólera gritam nas assembléias
 de cinza OH cidade de lábios tristes e trêmulos onde encontrar
 asilo na tua face?
no espaço de uma Tarde os moluscos engoliram suas mãos
 em sua vida de Camomila nas vielas onde meninos dão o cu
 e jogam malha e os papagaios morrem de Tédio nas cozinhas
 engorduradas
a Bolsa de Valores e os Fonógrafos pintaram seus lábios com urtigas
 sob o chapéu de prata do ditador Tacanho e o ferro e a borracha
 verteram monstros inconcebíveis
ao sudoeste do teu sonho uma dúzia de anjos de pijama urinam com
 transporte e em silêncio nos telefones nas portas nos capachos
 das Catedrais sem Deus
imensos telegramas moribundos trocam entre si abraços e condolências
 pendurando nos cabides de vento das maternidades um batalhão
 de novos idiotas
os professores são máquinas de fezes conquistadas pelo Tempo invocando
 em jejum de Vida as trombetas de fogo do Apocalipse
afã irrisório de ossadas inchadas pela chuva e bomba H árvore
 branca coberta de anjos e loucos adiando seus frutos
 até o século futuro
meus êxtases não admitindo mais o calor das mãos e o brilho
 platônico dos postes da rua Aurora comichando nas omoplatas
 irreais do meu Delírio
arte culinária ensinada nos apopléticos vagões da Seriedade por
 quinze mil perdidas almas sem rosto destrinçando barrigas
 adolescentes numa Apoteose de intestinos
porres acabando lentamente nas alamedas de mendigos perdidos esperando
 a sangria diurna de olhos fundos e neblina enrolada na voz
 exaurida na distância
cus de granito destruídos com estardalhaço nos subúrbios demoníacos pelo
 cometa sem fé meditando beatamente nos púlpitos agonizantes
minhas tristezas quilometradas pela sensível persiana semi-aberta da
 Pureza Estagnada e gargarejo de amêndoas emocionante nas palavras
 cruzadas no olhar
as névoas enganadoras das maravilhas consumidas sobre o arco-íris
 de Orfeu amortalhado despejavam um milhão de crianças atrás das
 portas sofrendo
nos espelhos meninas desarticuladas pelos mitos recém-nascidos vagabundeavam
 acompanhadas pelas pombas a serem fuziladas pelo veneno
 da noite no coração seco do amor solar
meu pequeno Dostoievski no último corrimão do ciclone de almofadas
 furadas derrama sua cabeça e sua barba como um enxoval noturno
 estende até o Mar
no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória
 atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores
 pulam no Caos

(paranoia, 1963)

Piazza I

       Uma tarde
                é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
              uma tarde de inverno
                                 sobre um grave pátio
          onde garòfani    milk-shake & Claude
                          obcecado com anjos
             ou vastos motores que giram com
                             uma graça seráfica
                tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado     provado    sonhado
                & longos viveiros municipais
            sem procurar compreender
                     imaginar
              a medula sem olhos
         ou pássaros virgens
                  aconteceu que eu revi
       a simples torre mortal do Sonho
                         não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
   Swift Jarry com barulho
         de sinos nas minhas noites de bárbaro
   os carros de fogo
               os trapézios de mercúrio
       suas mãos escrevendo & pescando
                    ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue & os grandes olhos abertos
              para algum milagre da Sorte

(piazzas, 1964)


         eu sou o jet-set do amor maldito
      DENTRO DA NOITE & SUAS CÓLICAS ILUMINADAS
os papagaios da morte com Aristóteles na proa do trovão
          DISPOSIÇÃO DE IR A DERIVA NOS DADOS DO AMOR
              espinafre pela manhã & queijo em pasta
                  almas-esportivas com flores entre os dentes
     minha laranja se abrindo como uma porta
         TUA VOZ Ê ETERNA eu vejo a mão cinzenta rasgar
     a parede do mundo
         ESTAMOS DEFINITIVAMENTE NA VIDA

(abra o olhos e diga ah!, 1975)


XX

vocês estão cegos graças ao temor
olhares mortos sugando-me o sangue
não serei vossa sobremesa nesta curta
            temporada no inferno
eu quero que seus rostos cantem
eu quero que seus corações explodam em 
            línguas de fogo
meu silêncio é um galope de búfalos
meu amor cometa nômade de
            riso indomável
façam seus orifícios cantarem o hino
            à estrela da manhã
torres & cabanas onde foi flechado o
            arco-íris
eu abandonei o passado a esperança
            a memória o vazio da década de 70
sou um navio lançado ao
            alto-mar das futuras
            combinações 

(20 poemas com brócoli, 1981)


Poema vertigem
Eu sou a viagem de ácido 
  nos barcos da noite 
Eu sou o garoto que se masturba 
  na montanha 
Eu sou o tecno pagão 
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung 
Eu sou o Eterno Retorno 
Eu sou o espaço cibernético 
Eu sou a floresta virgem 
  das garotas convulsivas 
Eu sou o disco-voador tatuado 
Eu sou o garoto e a garota 
  Casa Grande & Senzala 
Eu sou a orgia com o 
  garoto loiro e sua namorada 
  de vagina colorida 
  (ele vestia a calcinha dela 
  & dançava feito Shiva 
  no meu corpo) 
Eu sou o nômade de Orgônio 
Eu sou a Ilha de Veludo 
Eu sou a Invenção de Orfeu 
Eu sou os olhos pescadores 
Eu sou o Tambor do Xamã 
  (& o Xamã coberto 
  de peles e andrógino) 
Eu sou o beijo de Urânio 
  de Al Capone 
Eu sou uma metralhadora em 
  estado de graça 
Eu sou a pomba-gira do Absoluto 

(ciclones, 1997)

Marcos Siscar

Outubro 12, 2011 § Deixe o seu comentário

eu estou lendo marcos siscar (n. 1964, poeta, tradutor, professor de literatura na unicamp), ou melhor – eu tenho lido marcos siscar. explico-me: embora eu não seja do perfil “leitores de livro de cabeceira” que elegem alguns livros para a perpétua releitura (e por isso mesmo esta viagem de cabeceira, porque tudo passa – até a memória), seu livro metade da arte (2003, que compreende os livros anteriores, terra incultanão se diz e tome seu café e saia, além do próprio metade da arte) tem sido uma espécie de leitura reiterada e reiterante nos últimos tempos (e creio que isso seja bom, já que não se retorna (ou não se deveria retornar) àquilo que se detesta): lia eu por conta própria; li e debati num grupo de leituras de poesia contemporânea, voltei a ler por conta própria, e o processo de digestão ainda não parece ter chegado ao fim. talvez por isso este post. pra ver se acontece a digestão forçada, mesmo que não se trate exatamente de uma crítica.

vou tentar resumir como tenho convivido com a poesia de marcos siscar: é uma grande névoa, mas, como costumo gostar de névoas – curitiba é um paraíso das névoas, sobretudo matinais – sua poesia é uma grande névoa onde tenho me perdido nos últimos tempos.

a primeira questão está na forma: é a sistematização do desencontro entre verso e respiração (se lermos, um poema pausando ao fim de cada verso, acontece uma espécie de catástrofe da semântica gerada pelas pausas fora do lugar, o texto parece entrar numa fragmentação profunda, que uma segunda leitura revela ser mais sutil); a outra é a ausência total, ou quase, de pontuação,
que leva o leitor a preencher o poema com sua prosódia e leitura pessoais; somente o leitor pode dar-lhe tom, pausas – eu diria mesmo que aqui é o leitor quem inventa o verso em estado bruto apresentado por siscar. essa construção aparentemente frouxa chama o leitor, dá a ele sua parcela de coautoria no poema: para além de sua interpretação, o leitor é convidado a dar forma ao poema.

mas paradoxalmente a poesia de siscar é capaz de passar uma imensa paz/harmonia visual. quando olhamos para o(s) verso(s), com seu tamanho tão similar, temos quase a sensação, equivocada, de que o poema estaria de fato metrificado. no entanto, uma leitura mais atenta gera uma segunda sensação: a quebra dos versos parece ser praticamente aleatória, como que uma resposta automática ao tamanho da linha (mas eu arriscaria dizer que, por trás da aparente confusão entre imagem e ritmo, há um verso muito bem medido em sua poesia – tão recorrente nas referências cabralinas). um exemplo (um ótimo exemplo):

MAU INFINITO

persiste a dor a dor não é
somente a erosão artista
não se diz dor da dor despida
incapaz do hábito e da fratura
da dor a dor não se diz não
se diz seu não-dito não é mais
nem infinito não se diz dor
sem trair o que da dor se escorre
(sua voz frágil me comovia
meu deleite lhe era insulto)

(de não se diz)

embora esse não seja dos poemas mais radicais no processo de criação de siscar, podemos pensar que o poeta funciona como o criador da pedra-bruta-poema, que entrega essa pedra ao leitor e pede que ele seja capaz de esculpir a partir dos veios na rocha previamente deixados/incrustados pelo poeta. essa forma “bruta” do poema concide perfeitamente com sua metalinguagem, sua desconfiança no poder nomeador ou descritivo da linguagem. mas onde fracassa a linguagem entra a interpretação, que a renova por meio da subjetividade em movimento do leitor e dos caminhos traçados pelo autor – não se trata, obviamente, de uma subjetividade unívoca, mas do processo de subjetivação que liga leitor e poeta (“tudo é comum” é título e verso de outro poema, que não comento aqui).

por fim, o que mais pode enevoar é a presença de carrapichos (termo e conceito que interessa ao poeta em outros textos e livros) poéticos, trechos aparentemente desconexos, inserções das mais inusitadas, digressões alongadas, etc. que desnorteiam o texto e quebram a função comunicativa do poema. tudo isso produz a poesia-de-névoa de marcos siscar.

e, como já disse, eu tenho estado ali perdido; mas, se vez por outra me frustro (abandono e depois retorno), noutras vezes, e cada vez mais, aproveito a matéria de névoa – num email, ele me falou de “névoa boa” – e aqui eu deixo algumas boas névoas que fazem o volume sempre voltar às minhas mãos. dá pra ter uma mostra melhor na, revista agulha.

mais três poemas, então: estão aqui escolhidos pra marcar mais um ponto que me chamou para a releitura do livro. marcos siscar é capaz de escrever de modo muito (aqui escolho a palavra, mas ela parece falhar) “indiferente”. sua poesia, de certo modo inserida na tradição cabralina (ainda que fugindo à sua discursividade mais tradicional) e num certo tom francês, demonstra uma frieza que paira sobre o sentido. melhor que indiferença, seria falar de um certo “afastamento” do poeta. mas isso não implica, de modo algum, a fuga de temas que não permitem qualquer tipo de indiferença, tais como a morte, a perda e a paternidade (que aparecem nos três poemas abaixo); não se trata também de uma objetividade do tratamento (e creio que as névoas aqui apresentadas deixem claro como siscar está ciente da artificialidade e subjetividade envolvida no enquadramento da escrita). ao contrário, esse contraste entre tema e tom convida o leitor, pelo seu estranhamento, ainda mais à releitura atenta e de intervenção sobre as possibilidades do texto – existe um incômodo, é claro, existe também o risco da desistência do leitor; mas se o carrapicho pegar, se coçar, é provável que fertilize.

A MORTE TERÁ MEUS OLHOS

o pálido sentido da palavra morte
batido sem trégua num espelho de dias
mas como habituar-se com essa literatura
que preenche a vida de corpos e afasia
terrificante ainda a credulidade
por exemplo a dos olhos duplicados
na superfície inquiridora deste vidro
me interpela um anjo não nascido
(os olhos são bem mais velhos que o olhar)
um anjo que brinca e depois anuncia
que os olhos são velhos e lhe pertenciam
que um eu ali se consumia

(de não se diz)

Sobre uma taça de cristal

não acreditar em nada em nada
que reluz em nada que persiste
não nada é só belo e de nada
garante acreditar não persiste
o lugar em que a mão pousou
com carinho fere agora a mão
que toca
esta cinza de cacos
vinda do fundo de um armário
como uma fênix disforme sem
nem mesmo cacos acreditar em quê
em nada ora acreditar por quê

(de metade da arte)

Ao filho

o acontecimento não é o que acontece
mas o que vem acontecendo e talvez
um dia se possa dizer que terá acontecido
pedra que este nome lhe seja leve
entrar e sair desta vida é tarefa difícil
as respirações se aceleram com ruídos
travam combate com o vácuo da ausência
e desse encontro de águas me resta (a sua
boca uma harpa onde a vida entra em transe
seu nariz um inferno muito raso
sua orelha morde esse legado insaturável)
você é meu espelho não o que reflete
mas um avesso claro aquilo em que me falto
talvez você nasça você vem nascendo
você é meu pai meu filho não há
dia em que não se morra e ou não se nasça

(de metade da arte)

Guenádi Aigui

Outubro 9, 2011 § Deixe o seu comentário

o século vinte produziu muitos poetas falando de silêncio, repetindo seu silêncio à exaustão.

poucos foram realmente silentes.
esta semana li, a coletânea silêncio e clamor do poeta
tchuvache/russo
guenádi aigui (1934-2005),
com traduções de boris schnaiderman e jerusa pires ferreira.

isso é poesia do silêncio. poesia feita de silêncio e sono,
um pequeno ruído no meio do silêncio, um
(por vezes incompreensível)
vento que bate nas árvores e agrada – sem motivo.

decidi postar dois poemas, ao invés de comentar (aliás, esse é o plano do blog)

Silêncio

1

no clarão
da angústia desfeita em pó
conheço o desnecessário como os pobres conhecem a
roupa última
e os velhos trastes
e sei que este desnecessário
é o que o país precisa de mim
confiável como um acordo secreto
o calar-se como vida
e para toda a minha vida

2

no entanto, o calar-se é doação, e para mim mesmo: o silêncio

3

acostumar-se a tal silêncio
que seja como o coração que não se ouve bater
como a vida
que pareça um de seus lugares
e nisso eu sou – como a Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é árduo e existe para si mesmo
como no cemitério da cidade
a insônia do vigia

1954-1956

(trad. boris schnaiderman)

O Povo como Templo

e as almas que nem velas se acendem uma a outra

Aldeia de Romáchkovo
6 de janeiro de 2002, véspera de Natal

(trad. jerusa pires ferreira)

ah, vai mais um,
porque fiquei de fato arrebatado:

Jardim-Tristeza

é
(talvez)
o vento
que inclina – tão leve
(para a morte)
o coração

1994

(trad. jerusa pires ferreira)

e um depoimento de vladímir nóvikov, no fim do livro, que resume o que quero dizer:

Quietude e Silêncio não são para Aigui simples palavras, nem noções abstratas, mas sensações ontológicas fundamentais.”

mea culpa

Outubro 9, 2011 § Deixe o seu comentário

a falta de ócio me força a gastar ainda mais tempo
com um blog pessoal
é incontrolável

então aqui  ficam marcadas

leituras  traduções  poemas
sem nexo
sem mais